“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Excelso compincha, cá estamos, em contagem decrescente para o primeiro toque rectal. Faço 40 anos daqui a dias e estou, no que diz respeito a esta bonita idade, mais próximo da escola de pensamento actual do filósofo Paco Bandeira: apetece-me passar coisas a ferro com um cilindro. Em boa verdade, encontro-me presentemente no dealbar da minha quarta crise de meia-idade. A primeira sucedeu quando, ao entrar num autocarro em direcção à escola, na plena posse de 18 anos e o mesmo número de pêlos esparsos nas zonas do queixo e buço, uma mãe disse para o seu agitado pirralho: “Deixa o senhor passar”. Esse tratamento ficou a ecoar na minha cabeça como o “Despacito” na mente espaçosa duma blogger de lifestyle que ainda não conseguiu guita para apagar o tramp stamp. Da 2ª tinha 25 anos, um Peugeot 206 e uma namorada de 19 que – a meia hora da meia-noite – me disse com esgar sádico: aproveita bem os últimos minutos em que estás mais próximo dos 20 do que dos 30. Juntei estes algarismos todos e ainda hoje são a minha chave do EuroMilhões. A 3ª aconteceu aos 30, claro está. Na altura conduzia um MG TF cujos anúncios promocionais deviam ter sido protagonizados por aquela chavala que fez o “Species – Espécie Mortal”. A viatura, tal como ela, era linda por fora mas podre por dentro. Agora, a pouquíssimo tempo de entrar nos ‘entas’ e jamais sair, o atento Autohoje deixou ao meu cuidado o carro ideal para as emoções presentes (e peço que o leitor tire um dia de férias para ler o nome completo da bomba): o Mazda MX-5 RF 1.5 SKYACTIV-G 131 MT Excellence Pack Sport Navi. Basicamente igual ao meu próprio carro mas de capota rígida e mais potência. Capota rígida e mais potência, por sinal, poderia ser o título dum sugestivo porno. Esta década de colaboração com a revista significa que já me conhecem como a palma da mão. Sou um tarado por cabrios. No fundo, a criança dentro de mim sempre ansiou tornar-se um gajo sôfrego de meia-idade ansioso por dar uns giros de caracoleta ao vento. Tenho a certeza que, se fossemos obrigados a uma última edição do Autohoje por motivos de fim do mundo iminente, alguém magnânimo se lembraria de me sugerir um qualquer descapotável. E lá iria eu, único ser humano despreocupado e assobiante, a conduzir em direcção ao apocalipse. Assim entro nos entas, espécie de Peter Pan feliz como um puto com o seu MX-5 com capota de lona. Vou bem calçado, portanto siga a maratona. Maduro o suficiente para ter feito esta rima sem sucumbir à palavra óbvia… Inconsciente q.b. para mesmo assim deixar a insinuação. Sorriso travesso. Ponto final.

Luís Filipe BORGES

 

Caro Borges, já sabes o que se diz! Branco é galinha o põe! Espera. Não soa bem. Ah! Já sei! Caro Borges, já sabes o que se diz: os 40 são os novos 30! Bom, na verdade isto é uma frase que se aplica a cada década em que se entra e, já agora, gostava de perceber até quando é que isto faz sentido. Os 40 são os novos 30? Sim, compreensível e lógico! Com o lifestyle atual, os cuidados na alimentação, avanços na saúde e tecnologia, aos quarenta anos o ser humano pode realmente aparentar estar mais novo e ativo. Agora, não me parece que faça o mesmo sentido dizer “os 90 são os novos 80”, porque provavelmente a diferença de uma década para a outra só varia no número de fraldas. Sim, sei que a questão da incontinência não deverá acontecer com todos, mas aposto que vai acontecer comigo. Eu, em dias mais emotivos, já sou homem para largar uma ou outra pinguinha. Eu não sei se sinto a crise da meia-idade. Sabes que tenho uma farta cabeleira e barba negra. Está nos genes da família. O meu pai tem 83 anos e só há pouco começou a ter cabelo grisalho. Eu, há coisa de duas semanas, estava em frente ao espelho da casa de banho, e encontrei um pêlo da barba branco. Imediatamente, pareceu que tudo ficou a preto e branco ao som do “Mocidade, porque fugiste de mim”, do António Calvário. Quando dei por mim estava em frente à televisão a fazer encomendas de Calcitrin e Mangostão+. Claro que estou a exagerar... mas acabei por comprar uma frigideira em cobre muito boa! Os carros e a ostentação acabam por ser sempre uma escapatória para essas crises de meia-idade. Grandes máquinas, são sinónimo de juventude, irreverência e loucura. Sempre gostei muito de carros mas, curiosamente, nunca me deu para esses lados. Gosto de coisas práticas e que realmente fazem aquilo que dizem, como o Ioniq totalmente elétrico com o qual andei esta semana. Numa crise de meia-idade ninguém lhe passa pela cabeça comprar um veículo elétrico, mas se calhar devia, até porque já lá vai um tempo em que eram feios! Poupava na gasolina e aí podia gastar em coisas realmente úteis para a crise da meia-idade como psicoterapia e massagens tailandesas. Os elétricos vivem de um mito de que “não são carros”. É quase como aquele mito de “comer laranja à noite faz mal”, até alguém começar a experimentar essas coisas e reparar que... ainda cá anda! O mesmo se passa com elétricos. E se antes havia poucos postos e, para carregar um elétrico, parecias um pistoleiro e tinhas que fazer duelos a ver quem sacava primeiro para ficar com a bomba, agora estás à vontade. Só estou para ver o dia em que ainda dizes: “alguém tem aí um carregador?” “De iphone?” “Não, de Hyundai!”.

António RAMINHOS

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