A carrinha Mégane tem um historial de sucesso invejável, mas este tem sido ameaçado pela omnipresente Golf Variant e pela Astra ST, uma vencedora crónica de comparativos. Será a nova irredutível gaulesa capaz de manter a invencibilidade da Renault neste segmento?

O sucesso e a importância da gama Mégane no mercado nacional pode ser traduzido em números. Nos últimos 12 anos de comercialização foram vendidas 80 000 unidades e o Mégane foi o modelo mais vendido no mercado nacional em seis anos. A versão Sport Tourer representa 62% do mix de vendas da gama Mégane e 98% dos clientes opta pelas versões Diesel. Por fim, a versão GT Line (a escolhida para figurar neste comparativo) atrai mais de 50% dos clientes finais da carrinha gaulesa. Se mais argumentos fossem necessários para clarificar a importância deste comparativo, podemos ainda acrescentar que, a dividir o primeiro lugar das vendas com a Mégane ST, temos a eterna rival Golf Variant, que vê o seu sucesso alicerçado na fortíssima imagem de marca e na reconhecida qualidade geral. Já para não falar nos atributos do frugal e refinado 1.6 TDI de 110 cv que é traído dinamicamente pela caixa de apenas cinco velocidades, uma solução da VW que visa diminuir os custos, mas que corre o risco de ser quase incompreensível num segmento tão competitivo.

A carrinha Astra é, desde o lançamento em abril passado, outra contendora de peso entre as pequenas familiares e já deu boa conta de si nos vários comparativos em que se viu envolvida, sendo, atualmente, a referência do segmento. O motor 1.6 CDTI é um trunfo de peso, conciliando as melhores prestações do trio com os consumos mais comedidos, um Santo Graal que todos os construtores procuram, mas que poucos conseguem oferecer.

Como referimos, a Golf Variant 1.6 TDI parte com um ligeiro handicap na potência e binário (110 cv e 250 Nm), mas a verdade é que a VW defende-se com brio face a uma Mégane 1.6 dCi bem mais possante (130 cv). Pelo menos nas acelerações, já que nas recuperações os 320 Nm de binário da carrinha gaulesa acabam por “falar” mais alto e impor uma superioridade que resulta natural. Como também é “natural” que a Mégane Sport Tourer gaste mais do que a Golf. A Astra é que acaba por quebrar a ordem natural das coisas...

Voltando ao que é expectável, por ser a mais recente das três, a Mégane ST acaba por ter o habitáculo mais sofisticado, com destaque para o generoso ecrã tátil de 8,7” (300€) e para o painel de instrumentos digital que pode ser personalizado e que adota uma configuração distinta sempre que mudamos o modo de condução. Por falar nisso, a Mégane ST 1.6 dCi GT Line oferece cinco: Eco, Neutral, Comfort, Sport e Perso(nalizado). A seleção pode ser feita no ecrã tátil ou numa tecla de acesso direto colocada junto ao travão de mão elétrico. De referir que os padrões alterados prendem-se com a resposta do acelerador, direção, motor e climatização, já que a Mégane ST não pode ter suspensão pilotada (como a Talisman) ou o sistema 4Control (eixo traseiro direcional), um exclusivo das mais potentes versões GT (no início de 2017 chega a variante equipada com o 1.6 dCi de 165 cv). Já os acabamentos interiores, apesar do inegável salto qualitativo, ainda não estão ao nível dos restantes, em especial se compararmos com o rigor do Golf, tanto na escolha dos materiais como na montagem dos mesmos.

A Astra e a Golf também oferecem ecrãs táteis, mas são mais “analógicas” na altura de escolher o modo de condução que pode variar apenas com o estilo de condução de quem segue ao volante. Mas nenhuma das duas se sai mal. A carrinha Golf GPS Edition com jantes de 17” perde no conforto, especialmente em piso muito degradado, mas responde com um excelente comportamento. As reações são sempre previsíveis e seguras e o ESP, mesmo não podendo ser desligado (tal como o da Mégane), está particularmente bem calibrado. O Astra permite desligar o ESP, mas os limites de aderência são ligeiramente mais baixos e o controlo de movimentos de carroçaria não é tão apurado. Além disso, a articulação de Watt na suspensão traseira, que tantos elogios granjeou nas berlinas ensaiadas que dele dispunham, é opcional (250€).  De destacar ainda que a carrinha Mégane, mesmo com jantes de 18” e pneus 225/40, consegue um notável equilíbrio entre conforto e comportamento, confirmando os pergaminhos da “escola” francesa neste campo.

Infelizmente, e como já referimos, o motor 1.6 dCi continua a acusar alguma anemia abaixo das 2000 rpm. Aliás, é curioso confirmar que o Astra sofre do mesmo problema e que tanto a versão de 110 cv do 1.6 CDTI como o 1.5 dCi de 110 cv são bem mais solícitos em baixos regimes e “agradáveis” de utilizar em ambiente urbano do que os seus congéneres mais potentes.

Nesse aspeto, a carrinha Golf tem o motor mais suave dos três (embora por vezes lhe custe quebrar a inércia inicial nos arranques mais suaves) e o melhor insonorizado. Mas nem assim a Golf Variant conseguiu “fugir” ao lugar mais baixo do pódio. Não entrando, sequer, no campo da apreciação estética ou no cansaço do desenho interior, a carrinha de Wolfsburg começa a perder terreno na oferta de equipamento de conforto e segurança, no espaço interior (embora tenha a maior mala) e nas prestações.

A Astra compensa a menor mala do trio, com o maior espaço habitável, deixando nas mãos do cliente saber qual dos atributos é mais decisivo. Fruto da agressiva política comercial da Opel, a relação preço/equipamento, também é um dos principais atributos da Astra 1.6 CDTI. Curiosamente, a Astra volta a ceder pontos em itens que resultam exatamente de opções da marca, como a de oferecer apenas 2 anos de garantia quando as concorrentes já vão nos 5 ou declarar intervalos de revisão de 30 000 km ou 1 ano quando a Renault e a VW esticam o prazo para dois anos.

A Renault arrebata assim um merecido 1º lugar, alicerçado no bom comportamento (literalmente) da dinâmica, numa invulgar oferta de auxiliares de condução e em aspetos práticos como as garantias e intervalos de manutenção.

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